A equação do tempo na arte digital

A relatividade de Einstein não proclama que tudo é relativo e sim formata uma nova idéia que propõe um novo espaço-tempo para substituir os antigos conceitos newtonianos.

A fusão espaço tempo é absoluta como uma constante universal. Segundo as equações de Lorentz tempo e espaço se misturam, com medições e variantes específicas pelas referencias adotadas. O intervalo de tempo espaço é dinâmico, adquire uma não linearidade.

O “tempo presente” segundo Arlindo Machado é o mesmo que Edmond Couchot chama de “tempo direto”, isto é, o tempo da emissão e da recepção que é exclusiva da televisão e dos circuitos fechados de vídeo, que mostram o tempo de exposição como um tempo presente ao expectador. A transmissão ao vivo e direta da televisão, sem qualquer manipulação ou edição, fica sujeita às instabilidades do acaso e do imprevisto. A arte tecnológica se apropria das possibilidades dos eventos ao vivo, em ambientes de circuito fechado, com várias câmeras ligadas a monitores captam imagens do espectador que passa a integrar a obra, criando performances em tempo real. (MACHADO, 1988, p.69-82).

Edmond Couchot, diferentemente de Alindo Machado, considera o tempo real uma especificidade das tecnologias numéricas, pois, segundo Couchot, o tempo real é o tempo de resposta do computador. Para ele, esse é o tempo da virtualidade, da simulação, não tem passado, nem futuro, está sempre num fluxo presente contínuo. (COUCHOT, 2002, p.101/106)

Para Paul Virilio (1995) o ciberespaço e o tempo real, o instantâneo, prevalece sobre o espaço e a superfície com uma perspectiva que tem pontos de vista móveis, mutantes, conseqüentemente adquirimos uma nova percepção do mundo, mais fragmentado, imediato, formatando uma nova sociedade cultural.

A manipulação da imagem em tempo real de acordo com Christine Mello[1] são manifestações que rompem com o próprio ato da contemplação e o conceito tradicional de autoria, uma vez que na construção da narrativa, a arte em tempo real, faz uso das noções de copy/past, remix, apropriação e sampling, provocando, uma mistura e abrangências das artes em geral. São experiências sensórias do espaço-tempo no ambiente da arte em situações de troca e transferência simultâneas.

Assistimos o fenômeno da emergência na arte a partir de 1970 quando a fronteira entre as imagens, textos, sons e a interação, são hibridizados e utilizados de modo diferenciado num sistema generativo. Sistema que leva à adoção da complexidade, ordem e desordem como princípios eficazes de organização na comparação de diversos sistemas gerativos de arte. O traço de definição de Arte Generativa é a preferência que o artista estabelece em um sistema que pode gerar diversas formas possíveis, e melhor do que uma única forma concluída. O papel do artista é construir, iniciar ou meramente selecionar a estrutura de procedimentos para gerar possíveis expressões.

Pela primeira vez nós temos acesso a uma tecnologia e a uma teoria em que o mundo não está imposto para nós como uma relação somente visível de fora. Podemos agora também observar o sistema e a relação do exterior/interior e conceber a relação entendida em termos da endoestética de Claudia Gianetti.

Nesse sentido podemos, pela primeira vez, quebrar a prisão do espaço e do tempo, as coordenadas definidas por Descartes. Aqui e agora a grade torna-se mais maleável. A realidade virtual, as simulações, as instalações interativas do computador são entendidas como tecnologias do estendido, do não-lugar, de modo que transcende o horizonte e local do evento como nômade e pode ser pensada como uma tecnologia que nos liberta de nossa realidade.

Nas artes digitais, a interação do usuário é a essência do trabalho; ele depende disso para dar o sentido da obra, tanto aquele já estabelecido pelo artista como o que o interator, ou interagente, ou fruidor-operador irá criar. Enquanto a obra de arte em mídias tradicionais nos remete a uma postura contemplativa, nas obras digitais é imprescindível uma ação: é na experiência do interator com a obra que ela acontece, uma experiência de interação que exige um feedback em tempo real. Depois da manipulação das imagens, a interatividade foi o fator inovador do uso dos computadores na arte.

Hoje a arte está pensada dentro de um contexto artístico da mídia tecnológica, constituídas pelas diferenças que aparecem o olhar do outro. A arte digital tecnológica trabalha a relação temporal, o tempo cronológico e o tempo dentro do projeto, não existe um tempo de duração. Temos diferentes tempos numa obra digital, o tempo de percepção, tempo da sensação, o instigante, o tempo executável. (GALANTER, 2003. p.1)

Enquanto na música, o som é usado na construção de um discurso cujo encadeamento é essencialmente temporal, nos trabalhos de arte digital imagens, textos e sons se relacionam com o tempo de modo híbrido com outras fontes materiais, tais como luz, cor, espaço arquitetônico e objetos que se fundem no tempo real. O processo que chamamos de arte digital generativa pode ser diretamente relacionado ao trabalho de artistas e movimentos que representaram um papel precursor e que estiveram ligados à formação de modos de produção artística estabelecidos entre as décadas de 60 e 70 como a instalação, o happening e a própria música eletroacústica.

A forma híbrida da arte generativa pode ser associada a múltiplas raízes que incluem as performances do grupo Fluxus e os trabalhos pioneiros audiovisuais de Nam June Paik, apenas para citar alguns exemplos. (idem p2)

O comportamento imprevisível de sistemas deterministas foi chamado de “caos[2]”, termo introduzido por Tien-Yien Li e James A. Yorke em 1975. Atratores[3]estranhos como já citamos, surgiram primeiramente em 1971 com David Ruelle e Floris Takens, relacionados à natureza e fora dos testes padrões em que foram produzidos. (idem p.3)

Os processos caóticos não são aleatórios; seguem regras, e regras muito simples podem produzir uma extrema complexidade. Essa complexidade pode se expressar como uma série de equações ou ser visualizada quando o elemento tempo é introduzido em sua interpretação. A matemática do caos fornece as ferramentas para se criar e indicar tal fenômeno. O fenômeno científico tem uma estética artística que transcende sua capacidade de tentar explicar o mundo que nos rodeia. Os atratores estranhos geram repetições e testes padrões em um ponto no espaço bidimensional quando seus algoritmos colorem o que representam no tempo e podem produzir imagens tridimensionais coerentes

Nos últimos anos a tecnologia tem acompanhado experimentações temporais e espaciais, com obras que exploram o processo generativo e são referenciais para essa reflexão sobre o tempo nos sistemas emergentes.

Grafico do tempo
Grafico do tempo

A equação do tempo na arte digital pode ser expressa como:

S = software

Al = Algoritmos de comportamento e movimento (randômico, genético, físico, generativo, simples ou complexo)

Tc = conhecimento da técnica

P = processo ou sistema

E= Espaço/ambiente

A= ação/ interação

T= tempo maleável, fluído

S+Al + Tc = P (processo)

P + (E+A) = T

T= ( software+ algoritmos+ técnica) + ( espaço + ação/ movimento)

T= processo /sistema + interação

Tempo na arte (flexível e maleável) = Tempo de processo(com diferentes parâmetros) + tempo de execução ( com variáveis).

Esta equação divide o problema em dois termos, o primeiro chamamos de tempo em processo que leva em conta o software e os comportamentos algoritmos e o conhecimento técnico, que se movem num sistema, e o segundo de tempo em execução, que leva em conta a ação e interação do público e a tecnologia.

Concluímos, portanto que o tempo na arte digital tecnológica toma nova forma, não segue mais os conceitos da física clássica como conhecemos. Hoje ele é o resultado de uma equação de relação entre diferentes qualidades da tecnologia digital.

O tempo da arte digital é uma equação de relação entre tempo/ espaço, tempo/ação, tempo/resposta à essa ação, tempo/técnica. O tempo está inserido na obra digital por diferentes elementos, primeiro pela qualidade de tempo do software empregado, elemento manipulável de acordo com a intenção do projetista/ artista. O conhecimento da ferramenta e da técnica é fundamental para trabalhar a qualidade do tempo.

Na relação da ação /resposta do público, o tempo adquire nova potencia e pode ser modificado pelas diferentes variáveis do movimento. No processo em execução uma nova qualidade de tempo pode ou não ser sentido. O tempo fragmentado, ampliado, reduzido, inesperado, isto é, a sua duração é conseqüência direta do sistema em execução e suas potencias.

Trabalhos como Ultra-Nature de Miguel Chevalier[4] (México, 1959), apresentado no Emoção art.ficial 4.0, exemplifica o resultado da equação. O artista traz um jardim virtual, com seis variedades de plantas digitais, que carregam o código genético para se desenvolverem. A obra se realiza pela ação do público no tempo/espaço, captados por meio de sensores, respondem ao sistema com a polinização entre as plantas para influenciar de modo inusitado a floração.


Ultra Nature- M. Chevalier (2008)
Ultra Nature- M. Chevalier (2008)


[1] – Mello, Christine. “Imagens Vivas”, in: revista Trópico. Disponível em http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/1645,1.shl

[2] -Eduard Norton Lorenz, em 1955, participa do projeto de pesquisa do MIT cujo estudo se concentrava na previsão estatística do tempo. Projeto que estuda a Teoria do Caos para explicar o funcionamento dos sistemas complexos e dinâmicos. Nos sistemas dinâmicos complexos, determinados resultados podem ser “instáveis” no que diz respeito à evolução temporal como função de seus parâmetros e variáveis. Isso significa que certos resultados determinados são causados pela ação e a interação de elementos de forma praticamente aleatória

[3] – Um sistema dinâmico pode evoluir para:

um atractor fixo – (Por exemplo, uma bola a girar em volta de uma cova acaba por se fixar no fundo da cova, por ação da gravidade).

um atractor periódico – (Por exemplo, no caso do padrão cíclico de oscilação de um pêndulo, entre um certo número de estados fixos, o atractor é um ciclo limite).

um atractor estranho – (O sistema flutua para sempre entre vários estados de um modo que não é aleatório, nem é fixo, nem oscilatório, mas sim uma flutuação contínua e caótica).

Os sistemas mais complexos possuem todos os três tipos de atractores; condições iniciais diferentes levam não só a comportamentos diferentes mas também a tipos de comportamento diferentes.

[4] – Miguel Chevalier nasceu na cidade do México em 1959. Desde 1985, mora em Paris (http://www.miguel-chevalier.com/site/pages/sommaire_en/somm.htm) (vídeo da instalação http://www.youtube.com/watch?v=_N9uCfODWvg)