arte generativa – arte do protocolo

Alexandre Galloway (Galloway,2004),define o protocolo como o único modo de organização do universo da informação digital em rede, como uma forma de controle. Uma máquina de controle, mas no seu interior se engendra o oposto, porque por meio do hacker ou do vírus ele se rompe, saindo da cultura antiga e conservadora para uma cultura transmissível e executável.

Para Galloway protocolo hoje é sinônimo de possibilidade; ele trata o protocolo como código de leitura. Código executável, código de download, porque sem ele não existe conexão. (idem, p.164)

O código interfere nas questões sobre as dificuldades de acessibilidade ao projeto. O protocolo está intimamente ligado aos procedimentos editoriais, facilitador de modos de abertura e leitura. As maquinas de linguagem matemática e projetos que trabalham o espaço público sem fronteiras, produzem arte em formato de programação.

O protocolo pode ser pensado também como controle da descentralização, dando forma a uma cultura de remixagem, compartilhamento, desterritorialização. Uma cultura em que os traços são apagados, resultantes de uma máquina técnica sem alteridade.

O apagamento das matrizes consolida a técnica pela técnica, sendo pouco criativa, mas a software arte, vírus arte e mídia tática, como a arte executável que demanda uma série de rotinas próprias, configuração de parâmetros e requisitos de navegabilidade, traz novos modos e ritmos de leitura, mescla diferentes comportamentos, gera conflitos de leitura e percepção, e pelo ponto de vista cinético sua especificidade é dada pelo conceito ergódico. (idem, p.171)

E com uma postura não meramente estética as mídias táticas, isto é, o uso do protocolo em seu potencial até o limite extremo, a incorporação intencional que leva a sua quebra (dos protocolos), atingem o grau de responsabilidade além do seu possível. Para xemplificar fazemos as aproximações metodológicas e de pressupostos estéticos entre Olia Lialina, Alexei Shulgin, Vuk Cosic, Webstalker (I/O/D) e JODI. Todos estão preocupados em discutir arte, como gênero de arte digital com processos generativos na web. Desenvolvem projetos que formam a base crítica desse gênero de arte, como comunicação e transmissão de informação

Vuc Cosic- BlowUp
Vuc Cosic- BlowUp

O projeto Jodi.org trabalha a web com uma linguagem criada para substituir alguns arquivos padrões das páginas dos sites, remontando pela nova sintaxe programada uma nova página de arte ASCI. O projeto Refresh[1] também trabalha com programação para que uma cascata de páginas se abra na interação, criando em looping uma seqüência automática. São projetos que oferecem uma metamorfose randômica por meio da informação instável conectada a outros elementos (C.Paul, p 119-120).

Runme.org
Runme.org
www.jodi.org
http://www.jodi.org

Runme.org.[2] , Riot são projetos na categoria de arte generativa como software arte, Runme.org é um banco de dados, lançado em janeiro de 2003. Espaço aberto para receber projetos interessantes, moderados por Alexei Shulgin, Olga Garinova entre outros. Trabalha o protocolo como um banco de dados em constante formatação.

Projeto Riot Mark Napier
Projeto Riot Mark Napier

O projeto Riot[3] criado por Mark Napier é um browser que busca e mescla imagens de páginas online, remontando uma nova imagem visual a cada interação. Projeto de remixagem que apaga o contexto original para recombinar e colar segundo a interação e o banco de dados do autor. A preocupação estética está na recombinação de contextos para a criação de um novo texto visual ou sonoro. Explora a desterritorialização convencional dos domínios, sites e páginas, remontando de modo não-tradicional e questionando as noções de território e autoria.

Jaromil[5] artista multimídia trabalham o software como arte generativa. Seus projetos podem ser acessados em e http://rastasoft.org/jaromil.ph

Combinação de 13 caracteres, criados por Jaromil, que digitados em qualquer sistema Linux/Unix produz uma reação em cadeia que resulta na saturação da memória do computador
Jaromil -Combinação de 13 caracteres, criados por Jaromil, que digitados em qualquer sistema Linux/Unix produz uma reação em cadeia que resulta na saturação da memória do computador

Do ponto de vista das diferenças que existem entre os paradigmas estéticos do modernismo e do pós-modernismo, Claudia Gianetti[6] e Peter Weibel focalizam duas novas transformações radicais de nossa imagem do mundo e dos novos mundos da imagem: a endofísica e a nanotecnologia. O mundo de dentro e o mundo de fora

O projeto de Simon Biggs[4], artista britânico-australiano que trabalha com rotinas generativas na forma de instalações interativas e projetos em rede, apresentou no FILE 2006 a peça Non Loss’y Translator, em que o usuário digita um texto em a informação é captada pelo aplicativo e a exibe de maneira mais ou menos convencional. No entanto, o faz em diversas linguagens diferentes, incluindo inglês, alfabeto cirílico, códigos decimais ASCII que mapeiam as teclas do teclado e a tipografia, os códigos binários equivalentes ao código Morse e braile.

Simon Biggs - Non Loss’y Translator
Simon Biggs - Non Loss’y Translator

O mundo eletrônico com seus mundos e simulações de computador, a relação e as realidades virtuais dão-nos razão para acreditar que o mundo agora pode ser compreendido nos termos de uma relação. A endofísica e a nanotecnologia são duas maneiras diferentes de estudar o fenômeno da relação de um modo mais amplo do que foi possível até agora.

Claudia Gianetti define a endofísica como a uma ciência que explora o que um sistema olha, isto é, como e quando o observador se transforma em parte desse sistema. Para ela a endofísica nos mostra que a extensão da realidade objetiva é necessariamente dependente do observador. Desde que a perspectiva foi introduzida na teoria da arte renascentista, os fenômenos do mundo são entendidos pela localização regular do observador (co-distorção). Para a endofísica, essa posição somente é possível com um modelo, fora de um universo complexo e não dentro da própria realidade. Nesse sentido, a endofísica oferece uma aproximação a um modelo e a uma teoria geral da simulação, as realidades virtuais. (Gianetti, 2007, p2)[7]

A endofísica desenvolvida a partir da teoria do caos, para cujo desenvolvimento Otto Rössler contribuiu desde 1975[8], traz ainda outro aspecto: pode ser entendida como uma nova interpretação dos fundamentos da física quântica segundo Gianetti e P. Weibel( Weibel, p.3).

Pela endofísica, um observador tem de ser introduzido no mundo-modelo da física para fazer que a realidade existente lhe seja acessível. A endofísica fornece uma aproximação em dobro do mundo, dá acesso direto ao mundo real, pela relação dos sentidos, que em uma segunda observação posiciona o imaginário do observador. (Gianetti, p4)

Isto é, sem a endofísica, pode-se dizer que grande parte da teoria da estética moderna e contemporânea sobre a reflexão da criação artística limita-se a avaliar apenas aspectos concretos do objeto, como também a solução formal do trabalho ou a análise de suas estruturas. Investiga apenas os valores conceituais ou valores críticos inerentes ao trabalho.

A história da produção cultural evidencia que o homem detecta o mundo e suas possibilidades, revelando-se em muitas visões, formulários, prognósticos e paradoxos. O “resto do mundo” torna-se distorcido para o observador interno, de modo que não pode corrigi-lo ou reconhecê-lo. Mas o mundo é feito de borracha, somente nós não observamos isso, porque também somos feitos da mesma borracha, segundo Peter Weibel. (Weibel, p.35)

A Hiperinterface de Peter Weibel resultante da simultaneidade de um único ponto de vista do observador e a endofísica se apresentam como a grande promessa para o mundo complexo da eletrônica. As implicações da cultura, da indústria e pós-indústria, a mecanização, os novos meios, a simulação e a sintetização, a semiose, a realidade artificial etc. Esta aproximação fornece uma nova estrutura teórica científica, técnica e social do mundo moderno.(Gianetti, p 4) [9]

Com a endofísica, os mundos virtuais são exemplos especiais em que o observador, a realidade e as manifestações do mundo nos são revelados pela diferença de fenômenos internos e externos ao observador, fornecendo formulários do discurso da estética como referência própria, um mundo de sinais da imagem, da virtualidade e da interatividade, definidos pela arte eletrônica.

A aproximação da endofísica à eletrônica implica a possibilidade de experimentar a relação do observador com o mundo para poder ser descrita como uma relação de perspectiva explícita do observador interno. É o observador ou a comunidade quem, aplica critérios a fim de verificar os relacionamentos do significado de um objeto. A descrição de um trabalho ou de uma ação de arte e de seus atributos como a estética é desse momento em diante uma operação realizada pelo observador ou pela comunidade. (Gianetti, p5)

A arte generativa digital é um mundo por excelência do observador e do virtual. O que determina a natureza da arte generativa digital é o ponto de vista dominante ou o ponto de vista participativo. A arte digital segue a orientação do observador e desse modo, transforma-se no motor da mudança, da modernidade, isto é, a transição de fechado e definido para um sistema aberto, indefinido e incompleto. Um mundo de variáveis, de observações dirigidas, de perspectiva múltipla, do texto para o contexto, do lugar para o não-lugar, do total para o particular, da objetividade para a relatividade do observador e, finalmente, da ditadura da autoria para a subjetividade do mundo da máquina.

De acordo com os princípios da endofísica, o Projeto CODE*/UP[10], de Giselle Beiguelman (2004) exemplifica esse conceito. Em Code*/UP o observador se vê nos dispositivos de observação, as câmeras de celulares numa situação em que a máquina presta atenção à realidade virtual e onde o observador externo é simulado pelo código do programa, incluindo o observador interno na imagem, O espectador/observador do mundo se modifica pela relação entre a imagem real e a imagem virtual quebrando os limites na interação e na relação.

// CODE*Up Giselle Beiguelman
//** CODE-Up Giselle Beiguelman

Com a arte generativa digital, o mundo está se tornando cada vez mais manipulável em uma relação entre o observador e os objetos, conduzindo à introspecção de que somos apenas partes do sistema ou habitantes internos do sistema que observamos ou com o qual interagimos.

Pela primeira vez nós temos acesso a uma tecnologia e a uma teoria em que o mundo não está imposto para nós como uma relação somente visível de fora. Podemos agora também observar o sistema, a rede de informação e a relação do exterior/interior e conceber a relação entendida em termos da endoestética.

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[3]– RIOT browser arte desenvolvido em 2000 por Mark Napier.

http://www.potatoland.com/

[4]– Artista multimidia ingles, autor dos projetos : Book of Books 2004-Recombinant Icon 2004 -Babel 2001-reWrite 1999-Echelon 1999-Great Wall of China 1996- http://hosted.simonbiggs.easynet.co.uk/

[5]– Denis Jaromil Rojo. Programador, artista e ativista, participou na exposição CODeDOC II (Whitney Museum artport NY), Read_Me 2.3 (software art runme.org), negotiations 2003 (Toronto CA), I LOVE YOU (MAK Frankfurt).Jaromil é um dos participantes da companhia Giardini Pensili desde 1998. Participou do evento Animalie, Metamorfosi, Affreschi, Il Cartografo; artista do Instituto Montevideo. Time Based Arts (Amsterdam NL). É co-fundador em 1994 da associação Metro Olografix para a difusão da temática das networks, produz para dyne.org e é membro da FreakNet.

[6]– GIANETTI, Claudia- Endo-Aesthetics numeração de páginas são diferentes na versão on-line e na versão impressa. Disponível em http://www.mediaartnet.org/themes/aesthetics_of_the_digital/endo-aesthetics/http://www.mediaartnet.org/themes/aesthetics_of_the_digital/endo-aesthetics/

[8]– Rössler,nasceu em 20/05/1940.Bioquímico alemão que trabalhou com atratores caóticos, endofísica .(Endophysics: The world as an Interface (1992)

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