Sistemas autogenerativos

Nos últimos dez anos nossa vida vem sendo intensamente transformada pela tecnologia e a internet. Essa relação está presente em nossas casas, nossos escritórios, trabalho e lazer, construindo novos paradigmas de transmissão de informação, modificando nosso modo de comunicação. O mesmo ocorre com a arte, agora tecnológica, cada vez mais presente em festivais e exposições, questionando os novos paradigmas visuais, com novos aspectos de representação.

A arte tecnológica na web joga em uma relação de pesos e medidas iguais, com o conteúdo e o contexto. Ambos estão conectados porque a dinâmica da internet traz a informação por diferentes caminhos, por diferentes origens, em uma combinação de elementos quando acessados pelo comando de ação na tela do computador. A obra em web arte não se prende mais ao espaço interno ou externo, ela é realizada no momento da ação de comando. Algumas dependem do browser para a organização dos bancos de dados, códigos e programas acessados para serem reconfigurados na forma de um mapa.

O uso da tecnologia, segundo Margot Lovejoy, questiona o futuro da arte. As preocupações existentes nos projetos de arte tecnológica trabalham as tensões de confronto entre os diversos meios explorados, abrindo posicionamentos diferentes.

Para Lovejoy, um grande número de artistas está preocupado em desenvolver novas formas de narrativas, saindo do modelo hollywoodiano, para manifestações artísticas explorando diferentes instrumentos, modificando os tipos de narrativas. Esses projetos, que envolvem instalações, vídeos, interações e sons, se preocupam em usar a tecnologia como transmissor de novos conhecimentos, nos contextos religiosos, políticos e econômicos da sociedade global. Os artistas refletem, assim, as mudanças que o advento da internet está provocando com os espaços distribuídos com a nova estética pós-moderna. (Lovejoy, 2004. p.222-238)

O artista tecnológico trabalha sempre preocupado com o poder das mudanças, na busca do entendimento das implicações sociais culturais pela força da tecnologia.

Lovejoy define a arte tecnológica de hoje como translocal, transcultural e transnacional, porque vivemos hoje em um mundo descentralizado. A cultura da sociedade da informação, descentralizada e global, produz conhecimentos sem fronteiras e um novo espaço de possibilidades ilimitadas. (idem, p254)

Com os conceitos de Walter Benjamin(1998.p24), de que a tecnologia é uma estratégia de poder, e de Marshall McLuhan, de que ela é a extensão do nosso corpo, concluímos então: a conceitualização tecnológica nos confunde porque, segundo esses conceitos, não podemos definir quando ela é ação ou quando é observação.

As obras tecnológicas englobam todo tipo de manifestação e aspectos da imagem, estão sempre modificando nosso modo convencional de representação, configurando uma nova estética: dinâmica, participativa, interativa e, em alguns projetos, individual.

A tecnologia vem transformando a arte e nossa relação com ela. As imagens são mediadas por aparatos e dependem deles para a visualização e aparência. Incluem novos aspectos como sons, textos e movimentos. São manipuláveis.

A tecnologia do software, das câmeras fotográficas, das filmadoras, fax, celulares e webcams são responsáveis pela criação alternativa da realidade virtual como um híbrido/cíbrido. Novos projetos transmitidos pela web tornam-se livres das instituições, subvertem e redirecionam o meio digital como transmissor de informação em contextos e conteúdos políticos, sociais, religiosos etc. A internet propicia a divulgação de novas possibilidades culturais.

Segundo Lucia Santaella (Santaella, 2005) a convergência das comunicações e das artes se dá a partir do período da cultura de massas: inicia-se a intersemioticidade e a hibridização dos meios.

Os meios de comunicação e os meios de produção, distribuição e consumo, cada vez mais populares, instauraram a chamada cultura das mídias (vídeos, super 8, filmadoras etc.). Com o computador inicia-se a cibercultura ou cultura digital, que aproxima e converge cada vez mais a comunicação e a arte (Santaella, 2005. p17).

Com acessos facilitados pela multiplicidade de equipamentos e com diferentes sistemas de arquiteturas de redes, as possibilidades de transmissão de conteúdos se maximizam.

Na categoria de projeto generativo que é mantido dentro de um ambiente cíbrido agenciado pelos dispositivos nomádicos, temos o //Code Up, de Giselle Beiguelman[1], apresentado no Sonar, Nokia Trends, em 2004 em São Paulo, mediado por celulares que agenciam o envio de imagens para manipulação por meio da programação.

A arte generativa não se restringe mais ao espaço físico das galerias e museus. Ela está na rede, on-line, ela esta em um não-lugar, conectando culturas e pontos de vistas diferentes (idem, pp 286-287).

O projeto Genesis (1999) de Eduardo Kac , visto como projeto que explora o não lugar. É uma instalação interativa que pela ação online, transmite e modifica a informação recebida com base no código Morse para ser transformada em uma nova informação de luz/energia para gerar uma bactéria real no espaço expositivo.

Eduardo Kac- Genesis (1999)
Eduardo Kac- Genesis (1999)

A proliferação de instalações de vídeos e filmes interativos pode ser entendida como uma linguagem emergente derivada da possibilidade do meio digital, uma nova forma experimental de representação e comunicação. Dessa forma, a narrativa é reconfigurada e expandida. Projetos que utilizam telefones celulares ou aparatos multiusuários trabalham o espaço social e proporcionam ao interator a possibilidade de uma narrativa dinâmica deslocada. O espaço é o não-lugar e os experimentos são chamados de nômades (idem, p 289-291).

Estão também nessa categoria os trabalhos participativos, formatados pela proposta autoral e a plataforma de multiusuários, gerados pela interação, pelo sistema de códigos e da linguagem de programação. No projeto Community of Words, de Silvia Laurentiz[2] e Martha C. Gabriel, apresentado no File 2005 e no Turbulence.org em 2005, os participantes são convidados a escrever linearmente um poema, para depois observá-lo e transformá-lo. As palavras digitadas entram em um ambiente 3D e se posiciona em primeiro plano por certo período. Depois o sistema calcula e as reposiciona, conforme as regras definidas pelo algoritmo programado.

Community of Words, de Silvia Laurentiz e Martha C.Gabriel
Community of Words, de Silvia Laurentiz e Martha C.Gabriel

A nova geração de computadores e softwares vem facilitando a geração de trabalhos em que o som, sem um músico ou um estúdio, se posiciona entre a produção e a distribuição, perdendo a materialidade dos instrumentos e a temporalidade do limite da execução.

Para Lovejoy a arte como uma “grande pintura” se dá quando o projeto explora a imagem de uma cultura global, refletindo as condições humanas e o modo de vida em um mundo interconectado. (Lovejoy, p267)

Podemos aprender muito com projetos que cruzam arte e ciência. Como já citamos Eduardo Kac[3] em seu projeto Gênesis (1999) e Christa Sommerer e Laurent Mignonneau com E-Volve[4] (1994), que demonstra a fragilidade da vida humana em um mundo artificial.

Christa Sommerer e Laurent Mignonneau com E-Volve (1994)
Christa Sommerer e Laurent Mignonneau com E-Volve (1994)

O que acontece na cultura de rede é a entropia do sistema, dada a ruptura do mundo naturalista, promovida pelo estado de mediação da informação. As linguagens visual, verbal e sonora, em pixels, são mapas informacionais em constante modificação de comportamento; não estão no lugar, elas são.