Trabalhos que influenciaram e direcionam o futuro da arte generativa

O sistema usado pelos antigos povos, em padrões de estamparia, pinturas geométricas, onde um mesmo elemento é repetido em toda a área de modo que essa repetição de padrão é a aplicação de um sistema abstrato para compor uma superfície, como os trabalhos do mundo islâmico, a arte indígena brasileira[1], tapeçarias artesanais mexicanas e astecas, assim como inúmeros outros exemplos.

Eischer
Eischer
Arte Islâmica
Arte Islâmica

Lembramos aqui que o mundo islâmico foi um dos berços da inovação matemática e salientamos que a palavra “algoritmo” tem suas raízes nesse mundo.

Outro exemplo do uso dos sistemas autônomos, isto é a repetição de um elemento por toda a superfície, sem o uso do computador são os trabalhos de M.C.Escher.(Escher, 1982, p. 349)

Sua obra de natureza generativa, vista como “a divisão regular do plano”, foi realizada sem o uso de computador. (Galanter, 2003, p14).

Artistas como Carl Andre, Ml Bochner, Donald Judd, Paul Mogenson, Robert Smithson, também usaram a seqüência simples geométrica, em sistemas combinatórios como elementos generativos.

Com a era industrial alguns sistemas foram automatizados, mas foi o “jacquard”, padrão para tecidos, que em 1850 introduziu a noção de um programa armazenado como protocolo em cartões perfurados, revolucionando a arte generativa de tecer. Método que mais tarde inspiraram os cartões perfurados para computadores.

tear para jacquard com cartões-(fotografia de George P. Landow):

O mesmo método do jacquard foi utilizado por Charles Babbage[2] e Charles Hollerith [3], na invenção do computador. (Galanter,2003,p14)

Também observamos os sistemas autônomos nas descobertas arqueológicas nas grutas de Blombos, África do Sul, por Christopher Henshilwood[4] . Desenhos com grande similaridade com os desenhos que são reconhecidos claramente nas obras de Escher e na arte islâmica.

Inscrição da Gruta de Blombos
Inscrição da Gruta de Blombos

Muitos artistas ao longo da nossa historia usaram sistemas de geometria e simetria simples para gerar uma obra generativa.

O primeiro uso da randomização nas artes é uma invenção de Wolfgang Amadeus Mozart. Mozart que criou uma obra em que ele fornece 176 trechos de música preparadas para o publico criar uma composição numa seqüência aleatória e montar uma seqüência, dentro de uma grade dada. Talvez Mozart soubesse que a musica totalmente aleatória não seria interessante e encontrou uma maneira de misturar a ordem e a desordem.

A randomização na arte surgiu no século 20 com Elsworth. O artista usou materiais baratos tais como o papel dobradura e métodos de colagem colorida, inspirado nos patchworks aleatórios.

Elsworth
Elsworth

Também o escritor William Burroughs usou sua famosa técnica “cut-up” (Cramer,2004, pp76-77)inspirada na randomização como escrita criativa, explorando na arte visual o “atirar” aleatoriamente tinta de modo a eliminar parcialmente o suporte de madeira.

John Cage produziu uma seleção de sons gerados de modo randômico pelo computador e seguramente foi o artista que popularizou a arte generativa e o som aleatório. (Nyman, 1999, p196)

Briget Riley assim como Vassareli são os maiores expoentes da Optical Art, dos anos 60, apresentavam seus trabalhos como experiências visuais algorítmicas utilizando o contraste das cores empregadas como um motor cinético.

Ryley- Optical Art
Ryley- Optical Art

Os artistas generativos têm em comum nos seus trabalhos a escolha do sistema generativa como pratica da arte, numa grande diversidade de intenções, mas todos têm em seus limites a combinação de elementos de ordem e de desordem e, portanto elementos básicos da ciência da complexidade. (Galanter, 2008)

Alguns exemplos incluem algorítmicos genéticos, comportamentos de “swarming”, agentes computacionais, redes neurais, celulares autônomos, L- sistemas, caos. Sistemas mecânicos dinâmicos, fractais, vida artificial, comportamentos emergentes e toda a gama de sistemas adaptáveis complexos.

É difícil sumariar todo esse conjunto de projetos, mas já exemplifiquei com alguns de grande interesse.

O que se faz necessário enfatizar é que quando os sistemas complexos dominam a nossa atenção e as diferentes maneiras que a arte generativa é representada, os sistemas complexos não são “melhores” do que sistemas simples. Cada um tem um lugar histórico e contemporâneo na prática da arte. Ordenado ou caótico, simples ou complexo, são sistemas, que determinam um trabalho de arte generativa.

Como exemplo de música aleatória com montagem dadaísta Cramer cita as obras de John Cage[5] e seus contemporâneos, como Morton Feldman, Wolff Christian e o movimento Fluxus. No “Atlas Eclipticalis” de Cage, um mapa astronômico serve como uma contagem superficialmente aleatória e estabelece, uma vez ou outra, uma correspondência que justifique um randomismo na arte com o randomismo da natureza. Cage usa também o I Ching, o livro das mudanças chinês, como um algoritmo estrutural para seus trabalhos de música. (Cramer, 2004, p77)

Cornelia Solfrank
Cornelia Solfrank
Cornelia Solfrank
Cornelia Solfrank

A artista Cornelia Sollfrank, que não estava interessada em uma arte generativa autônoma, mas nas edições políticas e filosóficas, cria os geradores de net arte, em que seus programadores, por exemplo, não previram que os geradores criariam variações infinitas de retratos da flor de Andy Warhol, que se baseia em uma fotografia botânica feita pela fotógrafa americana Patricia Caulfield em 1962. Ao lado de muitas variações desautorizadas das flores de Warhol circularam imagens de cartões postais e pôsteres, e as flores modificadas por computador criaram questionamentos sobre autoria e originalidade. Nenhuma inteligência artificial foi necessária para criar as edições. A arte final era transformada por meio de um processo automático contínuo e, em conseqüência dessa geração de imagens a partir de outra imagem, uma exibição do projeto foi cancelada pelos organizadores do evento, temendo a violação do direito autoral. O software convencional vende ainda hoje a idéia de que o artista é como um criador autônomo, que trabalha com o dispositivo automaticamente e não é substituído pelos algoritmos. (Cramer, 2004 p83)

O cruzamento da teoria da complexidade e os sistemas explorados pelos artistas fornecem um espaço para pensarmos o contexto e se a arte generativa é uma arte gerada pelo computador.


[1]– Etnia Waurá utensilios -Região: Alto Xingu, MT

[2]– Charles Babbage (26 de Dezembro de 1791 – 18 de Outubro de 1871) foi um cientista, matemático e inventor inglês nascido em Teignmouth, Devon..Charles Babbage é mais conhecido e, de certa forma, reverenciado como o inventor que projetou o primeiro computador de uso geral, utilizando apenas partes mecânicas, a máquina analítica. Ele é considerado o primeiro pioneiro da computação. Seu invento, porém, exigia técnicas bastante avançadas e caras na época, e nunca foi construído. Sua invenção também não era conhecida dos criadores do computador moderno.

[3]-Hollerith, professor de Engenharia Mecânica no MIT (Massachusetts Institute of Technology), preparou o palco para a vinda do sistema de cartões perfurados no censo americano de 1890. Depois deste sucesso, Hollerith montou a sua Tabulating Machine Co. em 1896. Em 1911 criou a Computer-Tabulating-Recording Co., à qual Thomas Watson Senior se juntou em 1914. Uma década mais tarde esta companhia passou a chamar-se International Business Machines. – IBM.

[4]-Henshilwood demonstra que os habitantes da região praticavam uma arte simbólica muito antes de seus parentes europeus. Essa arte seria duas vezes mais antiga (-77.000 anos) que a da gruta de Chauvet, na Ardèche, na Franca, que pode ser considerada um dos sítios arqueológicos mais importantes na Europa

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